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Querida Konbini (Konbini Ningen), de Sayaka Murata

Irasshaimasê! Bem-vindo em japonês. Konbini é uma espécie de loja de conveniência japonesa e a autora utiliza esse "não-lugar" como metáfora da vida. Discute o que é ser normal na sociedade, as relações interpessoais e a nossa relação com o trabalho. A personagem principal, Keiko, é a narradora. Ela é uma espécie de caricatura desse não-normal. Possui problemas de sociabilidade, é desprovida de sentimentos, apresenta uma forma muito racional e analítica de funcionar. Quase um robô rodando um programa de como ser "ser humano" (Lembrei dos andróides de Blade Runner!). É alguém que não se adapta ao entorno, não consegue compreender "qual o jeito certo de sorrir, de cumprimentar", de viver. Os outros a consideram estranha, a família entende que ela precisa ser curada, ela não entende qual é a sua doença. Do ponto de vista de Keiko, nos contagiamos com o jeito de ser das pessoas com as quais convivemos, absorvemos seu modo de vestir, de falar, de reagir. E esse...

Falar sobre a morte? Uma advertência para a vida...

Talvez por conta da pandemia de COVID-19 e o grande número de mortos no mundo, os últimos livros que li falam sobre o morrer, trazem uma reflexão sobre como nos sentimos quando temos uma doença terminal e sabemos que o tempo de vida que nos resta está acabando. "A morte de Ivan Ilitch" , de Leon Tolstoi, é uma ficção e, como o nome sugere, narra a morte - e também a vida - de um juiz de 45 anos, no século XIX. Em seguida, li "A morte é um dia que vale a pena viver" , de Ana Claudia Quintana Arantes, livro atual que aborda o morrer do ponto de vista de uma médica especialista em Cuidados Paliativos. Ana Claudia trabalha com doentes terminais e observa que o que mais os apavora não é a morte em si, mas a ideia de não ter aproveitado a própria vida, o como vivemos. "E se na verdade toda a minha vida tiver sido errada?" , se questiona Ivan Ilitch.  Falar sobre o fim nos lembra do caminho que percorremos, não é verdade? Não me sinto à vontade para "dar co...

Sejamos realistas esperançosos!

Eu costumo dizer que sou uma pessoa otimista, meu copo está sempre meio cheio. Ao longo da vida - hoje tenho 46 anos - essa maneira de viver o dia a dia foi muito confundida com alienação, ingenuidade ou era a menina "que não deve ter problemas", sempre sorrindo. Talvez faça mesmo algum sentido porque, de fato, não acho que preciso ter opinião sobre tudo (alheia por convicção!), acredito no ser humano (" you may say I'm a dreamer" ) e, realmente, não tive grandes dificuldades ao longo da vida. Mas gosto de pensar que sou uma realista esperançosa , no dizer de Ariano Suassuna. Ao longo desses meses, em meio à pandemia do coronavírus, refleti sobre o conceito de espera-nça e seu oposto, o des-espero . Ouvi filósofos e poetas. Para mim, quem tem esperança espera que o Bom, o Belo, o Justo e o Verdadeiro - os ideais platônicos - se sobreponham. Porque é próprio do homem. Confia no insondável, na vida e, principalmente, tem fé em si mesmo . A esperança em que acredi...

O Porco Espinho, Le Hérisson

Gostei do filme francês Le Hérisson . A personagem pricipal, Paloma - uma menina de 11 anos, de classe alta, inteligente -, decepcionada com a vida que observa ao seu redor, decide que quando fizer 12 anos irá se matar, pois essa é a única maneira de fugir do destino que a espera. Com uma filmadora velha do pai, vai gravando cenas de sua vida cotidiana, seus olhares. O filme conquista talvez pela sutileza. É mais do que a diferença de classes, a zeladora que não é vista, a vida vazia da classe alta, os 10 anos de terapia-antidepressivos-champagne, a falta de comunicação verdadeira nessa família... é o esconderijo perfeito - um quarto repleto de livros, de mundos que encantam Madame Michel -, é a gentileza e o respeito de um estranho, o desenho e a filmadora de Paloma ajudando-a a significar a vida. "O mais importante não é a morte em si, mas o que você estava fazendo quando ela chegou", é o como se leva a vida que dá sentido à morte e há sempre oportunidade de mudarmos a ...

Casa arrumada, mente equilibrada

Tudo no Universo tem uma Ordem, não é verdade? A Natureza não é aleatória, o sol não nasce apenas quando está a fim, a lua não deixa de brilhar porque está triste, as estações - primavera, verão, outono, inverno - se sucedem, independente de pandemia, de guerras ou nossos lutos pessoais. E nós, seres humanos, não podíamos ficar de fora dessa Ordem. O Caibalion - estudo da filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia - nos ensina que “sempre existe a vibração rítmica de um pólo a outro. O Pêndulo Universal sempre está em movimento. As marés da Vida sobem e descem de acordo com a Lei”, da mesma forma que “há sempre uma ação e uma reação, uma marcha e uma retirada, uma alta e uma baixa, manifestadas em todos os tons e fenômenos do Universo.” A Ordem, portanto, permeia toda nossa vida, nos aspectos físicos, energéticos, emocionais, mentais. "O que está em cima é como o que está embaixo", princípio da correspondência. Se estamos organizados dentro, nossa vida externa será espe...

Passarinho Feio ou Pegasus? A escolha é nossa.

A "Lenda do Pégaso" é uma linda canção de Moraes Moreira e Jorge Mautner, que fala de um passarinho feio que não sabia quem era nem a que veio e, então, vivia a sonhar em ser o que não era. Alguém se identifica? Quem de nós pode, de fato, afirmar que se conhece, que age conforme seus princípios e finalidades, sem se deixar levar pelos desejos e opiniões do outro, imune a qualquer tipo de manipulação ou influência? Era uma vez, vejam vocês, um passarinho feio Que não sabia o que era, nem de onde veio Então vivia, vivia a sonhar em ser o que não era Voando, voando com as asas, asas da quimera Sonhava ser uma gaivota porque ela é linda e todo mundo nota Quando Alice - no País das Maravilhas - pergunta ao gato qual o melhor caminho, ele questiona para onde ela deseja ir e ela responde que não sabe, ao que ele retruca: então, qualquer caminho serve. E não é assim? Qual meu propósito de vida? Para que vive Carla Jucá? Como vive? Por que vive? (um professor me fez essas perguntas ...

Em que momento deixamos de sorver os cheiros e sabores da nossa vida diária?

Por indicação de uma colega, esses dias vi Perfect Sense , traduzido como Sentidos do Amor , direção do inglês David Mackenzie, co-produção da Alemanha, Reino Unido, Suécia e Dinamarca. Nos papeis principais, Ewan McGregor - de Moulin Rouge, Beginners , I Love You Phillip Morris - e a francesa Eva Green, linda! (Não a conhecia...) Grande metáfora para ilustrar o adoecimento da humanidade nos tempos atuais. São 5 os sentidos do corpo humano: olfato, paladar, audição, visão e tato (se não considerarmos o 6o. sentido... a intuição!). Sentimos, internalizamos o mundo e suas "coisas" através dessas capacidades. A vida e seus dias têm cheiros e sabores, sons e imagens, texturas...Nossas relações - intrapsíquicas e interpessoais - são construídas, elaboradas, ancoradas no sorvido pelos nossos sentidos, cada lembrança de dor ou prazer nos remete a um cheiro, um sabor. Cada memória relaciona-se a projeções imagéticas do vivido, desejos de futuro. Tranquilidade? Azul , o m...