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Mortal Loucura - Gregório de Matos

O ser humano sendo sublime e humilde... Poema de Gregório de Matos, musicado por José Miguel Wisnik e interpretado por Caetano Veloso para o musical Onqotô do Grupo Corpo em 2005. No vídeo, quem recita é Bethânia. Mortal loucura Na oração, que desaterra … a terra, Quer Deus que a quem está o cuidado … dado, Pregue que a vida é emprestado … estado, Mistérios mil que desenterra … enterra. Quem não cuida de si, que é terra, … erra, Que o alto Rei, por afamado … amado, É quem lhe assiste ao desvelado … lado, Da morte ao ar não desaferra, … aferra. Quem do mundo a mortal loucura … cura, A vontade de Deus sagrada … agrada Firmar-lhe a vida em atadura … dura. O voz zelosa, que dobrada … brada, Já sei que a flor da formosura, … usura, Será no fim dessa jornada … nada.

Elena - o filme

    http://www.elenafilme.com/ Outro dia, charlando no face, vi um vídeo promocional do documentário chamado Elena . Não fazia ideia do que se tratava. Nunca tinha ouvido falar em Petra Costa, a diretora. A forma como Elena foi apresentada no tal vídeo, no entanto, me fez querer conhecê-la... O documentário é belíssimo, forte - é uma pancada, viu? -, a trilha sonora é linda, as imagens são maravilhosas e a delicadeza com que a história é contada nos toca a alma. Confesso que, após ler a crítica de Eliane Brum sobre o filme, não consigo dizer, acrescentar quase nada. Bom filme! Petra – Uma mulher em busca do próprio corpo Eliane Brum Houve esse primeiro sonho. Elena veste uma blusa de seda e está em cima de um muro alto, enroscada nos fios elétricos. Logo é Petra quem está enroscada. Petra mexe nos fios. Leva um choque, cai do muro alto e morre. Quem morre? Petra acorda desse sonho com um nó no estômago. Elena não acorda. Elena morreu aos 20 anos, em 1...

A Arte de Perder - Elizabeth Bishop

  UMA ARTE / A arte de perder – até um traste aprende; e há tanta coisa que pretende a perda, que perder não é desastre. Perca todos os dias algo. Afaste a dor de ter perdido a chave, o tempo. Ora, perder aprende até um traste. A prática da perda então se alastre por nomes e lugares, e onde pense viajar. Que nada irá trazer desastre. Perdi o relógio da mamãe; não baste, das casas, a que mais me fez contente. Ora, perder aprende até um traste. Perdi duas cidades. E, em contraste, dois rios, um domínio e continente. Sinto saudades. Mas não foi desastre. – Mesmo perder você (a voz, o gesto que eu amo), tanto faz. Que até um traste aprende a arte de perder, se bem que se pareça (escreva!) com desastre.

"Detachment" e "Ferrugem e Osso"

Vi bons filmes esses dias e quero recomendá-los! ;-) O americano Detachment , cujo nome em português – O Substituto – não faz jus à complexidade do filme. Detachment pode significar “the state of not being influenced by emotion or prejudice”, ou seja, “Desapego” ou “Imparcialidade”? A partir do olhar de um professor substituto em uma escola americana, a temática da indiferença é trazida e perpassa todas as relações. Não se trata de um filme sobre professores e alunos somente, mas sobre seres humanos e suas dificuldades (intra) interpessoais. A direção é de Tony Kaye, o mesmo de “A Outra História Americana” e o protagonista é Adrien Brody (d’ O Pianista) e ainda temos a oportunidade de ver Lucy Liu em um contexto inesperado, preste atenção na cena em que sua personagem, uma psicóloga, se descontrola ao conversar com uma aluna. “E eu nunca me senti tão imerso em uma pessoa ao mesmo tempo em que estou tão desapegado de mim mesmo e tão presente no mundo” Albert Camus ...

Grande Sertão: Veredas

Fiz Letras. Há (auto)"exigências" para quem se propõe a conhecer o mundo da linguagem... E uma dessas obrigações era conhecer João Guimarães Rosa - o mágico das palavras. Aluguei (sim, quando iniciei a graduação, descobri uma locadora de livros - um paraíso - se alugasse 3 livros por vez tinha desconto!) "Grande Sertão: Veredas", iniciei a leitura, dura, truncada, língua estrangeira. Abandonei. O tempo passou. A vida passou em mim. Anos depois, já formada, uma amiga trouxe Guimarães Rosa para minha vida novamente. E tanto falou e se emocionou que eu encantada/envergonhada cedi e pedi o livro emprestado. Qual o quê! "O senhor ache e não ache. Tudo é e não é ..." Aquilo vai entrando em você, é igual ler em uma língua estrangeira, no início há distância, mas aí somos absorvidos e o outro vira um. "Eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria ...

"E se vivêssemos todos juntos?" e "Amour", sobre o envelhecer, amizade e amor.

No último final de semana do ano, período já marcado por reflexões e revisões de percurso, vi dois filmes incômodos sobre o envelhecer... “E se vivêssemos todos juntos” , no original “ Et si on vivait tous ensemble ?”, co-produção França e Alemanha, roteiro e direção de Stéphane Robelin, e Amour , roteiro e direção do austríaco Michael Haneke, o mesmo de “A Fita Branca”, vencedor do Festival de Cannes 2012, com Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant.  Trailler legendado de "E se vivêssemos todos juntos" Os dias passaram e não consegui não escrever sobre o assunto... o filme de Robelin traz um grupo de amigos que resolvem morar na mesma casa, de modo que possam apoiar-se mutuamente em seu processo de envelhecimento – aborda a fragilidade, a dependência, as limitações, o adoecer -, no entanto, é mais suave, aponta sem ferir. Trailer legendado de Amour Já Amour é “baço.com”, silencioso, ritmo lento, 123 minutos de duração em que não se consegue...

Soneto do Vinho

Soneto do Vinho Em que reino, em que século, sob que silenciosa Conjunção dos astros, em que dia secreto Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa E singular idéia de inventar a alegria? Com outonos de ouro a inventaram. O vinho flui rubro ao longo das gerações Como o rio do tempo e no árduo caminho Nos invada sua música, seu fogo e seus leões. Na noite do júbilo ou na jornada adversa Exalta a alegria ou mitiga o espanto E a exaltação nova que este dia lhe canto Outrora a cantaram o árabe e o persa. Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história Como se esta já fora cinza na memória. Jorge Luis Borges